Depois do Camélia Òdòdó, o novo restaurante de Bela Gil tem um nome bem familiar: Preta Maria. “Aqui tem alma doce, acolhedora e generosa, assim como minha irmã”, define a chef sobre sua novidade, recém-aberta no complexo do Mata São Paulo.
Junto com uma homenagem à Preta Gil, o espaço nasceu da vontade de enaltecer a cozinha afro-brasileira. O convite partiu de Alex Allard, o empresário por trás do empreendimento. “Esse não é só um lugar para sentar, comer e pagar. É para celebrar uma cultura”, declarou o francês ao receber convidados na festa de inauguração oficial do restaurante esta semana.
Bela conta que a ideia de batizá-lo com o nome de Preta Gil veio durante o processo de desenvolvimento. “Ao longo dos meses, vi como o projeto estava deslumbrante. Pensei: ‘está ficando a cara da minha irmã’. Tem tudo a ver com ela, uma pessoa que sempre enalteceu a cultura africana, o movimento negro, e era aquela coisa linda, maravilhosa, vaidosa, luxuosa”, contou emocionada durante o evento.

Preta chegou a saber da homenagem. “Contei para ela, quando já estava doente, em tratamento. Ela se emocionou e ficou muito feliz”, lembrou Bela. “Então muito além de um negócio de alimentação e de promoção da cultura africana, é também uma homenagem a essa pessoa que fez tanto pela gente, pela nossa cultura e pelo Brasil”.
A África no prato, do jeitinho Bela Gil de ser
“Entusiasta da culinária africana”, a chef traz à mesa referências de diferentes países. Pense na Nigéria, Benim, Costa do Marfim, Angola e mais, mas com um toque de Bela – ou seja, com foco em alimentação saudável e vegetais.
Não, o cardápio não é totalmente vegetariano, mas eles estão no holofote: o vatapá, ao invés de camarão seco, traz cará; a moqueca é de banana-da-terra; e a feijoada leva só tofu defumado, quiabo e abóbora, nada de porco. O dendê, como é de esperar, aparece em diversos momentos, da pipoca de entradinha ao negroni com o azeite – criação de Gabriel Bressane, head bartender do Mata São Paulo.
Do Senegal vem o Mafe, ensopado à base de amendoim, no Preta preparado com legumes, sobrecoxa de frango e espuma de leite de coco e chilli oil. A Etiópia é representada à mesa com o Sega Wat, um guisado de carne bovina cheio de especiarias, acompanhado de purê de cará, arroz da terra, couve crispy, picles de cebola e ovo – uma espécie de picadinho africano. Tem também acarajé, Arroz Jollof com frutos do mar, tabule de painço e capeletti de jaca.
Toda a riqueza cultural que pauta o menu se estende para a arquitetura, guiada pelo afrofuturismo e nas simbologias da diáspora africana. Materiais (especialmente naturais, como taipa, a piaçava e o barro), cores, estampas e mobiliário ajudam a construir a narrativa, enquanto uma estrutura circular de bambu ocupa o centro do salão, em referência às rodas de jongo e capoeira. O projeto é assinado pelo Estúdio Guto Requena, ao lado dos arquitetos Gabriela de Matos e Mateus Fraga.
Junto com a vontade de mostrar que comida afro-brasileira “tem sabor e delicadeza”, Bela segue numa missão de vida, a longo prazo. “Trabalho pela democratização do bem comer, levando consciência e conhecimento sobre alimentação para a população brasileira”.

