Você acha que o maior legado de um megaevento é um estádio? Penso, muitas vezes, que pode ser um apartamento de 30 metros quadrados.
Parece absurdo, mas já se perguntou o que realmente sobra quando um megaevento vai embora?
Em 2014, o Brasil parou para receber uma Copa do Mundo. Depois vieram as Olimpíadas, estádios, obras, bilhões em investimentos. Quando a festa acabou, o que sobrou foram perguntas.
Todo mundo pensa na obra, mas proponho um olhar diferente.
Enquanto alguns megaeventos deixam estádios, outros não deixam arena, não deixam avenida, não deixam nada, só uma multidão: Madonna, Shakira, Lady Gaga. Os shows acabam, o palco vai embora. A praia de Copacabana continua no mesmo lugar que sempre esteve. Só que o mercado imobiliário, não.
Nos últimos anos, apartamentos compactos passaram a valer proporcionalmente mais do que apartamentos grandes em bairros como Copacabana. E a mesma tendência pode ser vista em bairros nobres como Ipanema, Leblon, indicando que está acontecendo uma mudança na forma como esses imóveis passaram a ser precificados.
Você já deve ter visto, inclusive, que Copacabana está liderando o ranking mundial de aluguel por temporada. Eu posso atestar com base em dados registrados.
Quando vi isso, me veio uma pergunta na hora. Será que o mercado mudou porque as pessoas passaram a querer viver nesses apartamentos? Ou será que esse tipo de ativo começou a responder outra pergunta?
Antes, o imóvel era avaliado por uma lógica: “quanto é que custa morar aqui?”. Agora, em muitos casos, a pergunta é mais parecida com: “quanto é que isso rende por noite?”.
Quando pensamos em cidades turísticas, que são fruto de desejo mundial e passam a sediar eventos como copas do mundo, olimpíadas, shows de artistas idolatrados, também precisamos pensar no real valor que esse tipo de evento gera pra cidade.
E se a maior transformação não for um estádio, uma obra, uma nova linha de metrô, e sim uma mudança de régua? Quando a cidade aprende a transformar fluxo em renda, o mercado inteiro muda junto. E, então, o imóvel que parecia pequeno demais para morar, muitas vezes, é exatamente aquele que vira o mais disputado para investir.
Toda vez que um grande evento acaba, sempre nos perguntamos o que aquilo deixou de valor pra cidade? Proponho uma pergunta melhor: que tipo de cidade esse evento ensinou o mercado a enxergar?
Alguns shows acabam quando as luzes se apagam. Outros continuam acontecendo toda vez que alguém compra um imóvel por uma razão completamente diferente da que existia há uns anos atrás.

