Poucas frases se tornaram tão emblemáticas nos últimos anos quanto o bordão “never sell your bitcoin” ou, em tradução direta, “nunca venda o seu bitcoin”, repetido à exaustão por Michael Saylor, executivo-chefe da Strategy.
A empresa, antiga MicroStrategy, transformou-se na maior detentora corporativa de bitcoin do planeta justamente sob essa filosofia: emitir títulos de dívida, ações ordinárias e preferenciais para comprar cada vez mais bitcoin, sem nunca se desfazer de uma única unidade.
Saylor chegou a dizer que seria preferível vender um rim a vender um bitcoin. Esse modelo, replicado por dezenas de empresas pelo mundo, foi durante anos celebrado como uma das principais forças compradoras estruturais do mercado de criptoativos.
Vale lembrar que essa mudança de postura não surgiu do nada. Há algumas semanas atrás, a Strategy informou ao mercado a primeira venda de bitcoin da companhia desde dezembro de 2022. Foram 32 unidades vendidas, valor simbólico diante das mais de 847 mil unidades em tesouraria, mas o gesto foi muito mais importante do que o tamanho da venda.
Na ocasião, a operação foi interpretada como uma forma de “imunizar” o mercado, preparando gradualmente os investidores para a possibilidade de vendas maiores no futuro.
Naquele momento, a justificativa oficial foi o financiamento dos dividendos das ações preferenciais, mesmo tipo de obrigação que está no centro do anúncio desta segunda-feira (29). Em outras palavras, o plano divulgado é a institucionalização daquilo que a venda simbólica de junho já sinalizava: o “nunca vender” estava com os dias contados e o mercado precisava se preparar para o futuro.
Algumas semanas depois, tivemos a resposta para a possibilidade de novas vendas: a Strategy anunciou oficialmente o “Digital Credit Capital Framework”, uma reformulação ampla e profunda do seu modelo de gestão financeira.
A empresa abandonou formalmente o discurso do “nunca vender” e adotou uma postura de gestão ativa do balanço, com flexibilidade para vender bitcoin quando julgar adequado. Trata-se de uma das mudanças de discurso mais significativas da história recente do mercado de criptomoedas, e o investidor brasileiro precisa entender o que está realmente em jogo.
Antes de avançar, vale entender o que foi anunciado. A Strategy autorizou a venda de até US$ 1,25 bilhão em bitcoin, valor que pode ser utilizado para reforçar a reserva de caixa da companhia, financiar o pagamento de dividendos de ações preferenciais e custear despesas com juros.
Além disso, foram aprovados dois programas de recompra de ações, de até US$ 1 bilhão cada, sendo um para ações ordinárias e outro para ações preferenciais. A empresa também elevou o dividendo das suas ações preferenciais STRC de 11,5% para 12% ao ano.
Por fim, o conselho estabeleceu uma política de manutenção de reserva mínima em dólar equivalente a, pelo menos, doze meses de obrigações financeiras.
São muitas mudanças anunciadas que alteram profundamente a visão anterior colocada pela empresa como “acumular bitcoin e nunca vender”. Na prática, ao invés de só confiar nada alta do bitcoin, agora a empresa poderá surfar outras movimentações, vender para recomprar por um valor menor, participar ativamente de estratégias para trazer retorno ao acionista.
E isso nos leva ao próximo ponto: o que levou a Strategy a essa mudança histórica?A resposta passa por uma combinação de fatores que vinha pressionando o modelo há meses. O bitcoin, atualmente abaixo dos US$ 60 mil, acumula queda significativa em relação aos picos anteriores.
As ações da Strategy, por sua vez, recuaram aproximadamente 82% do topo. Mais grave ainda: as ações preferenciais STRC, que pagam dividendo perpétuo aos seus detentores, despencaram para a casa dos US$ 75, bem abaixo do valor nominal de US$ 100. Essa queda inviabilizou, na prática, a continuidade do modelo de emissão constante de novos títulos para financiar novas compras de bitcoin, pois os custos de capital ficaram proibitivos.
Adicionalmente, uma métrica técnica conhecida como mNAV caiu abaixo de 1,0 pela primeira vez na história da empresa. Em termos simples, isso significa que o valor total das obrigações financeiras da Strategy passou a superar o valor de mercado dos seus bitcoins.
Para uma empresa que financiou anos de compras agressivas com dívida e ações preferenciais, esse foi o sinal mais claro de que o modelo precisava ser revisto. Em outras palavras, o mNAV é uma métrica que compara o valor de mercado da empresa com o valor das suas obrigações financeiras totais, descontado o valor dos bitcoins em tesouraria.
Quando essa métrica fica abaixo de 1,0, significa que as dívidas e obrigações superam o valor que a empresa teria caso liquidasse todos os seus bitcoins. E isso é um grande problema porque inviabiliza o ciclo virtuoso que a Strategy operava por anos: emitir ações com prêmio para comprar mais bitcoin. Quando o mNAV fica abaixo de 1,0, emitir novas ações passa a destruir valor em vez de criar, restando à empresa a venda do próprio bitcoin para honrar obrigações.
E aqui chegamos ao ponto mais surpreendente do anúncio: a reação do mercado. As ações ordinárias da Strategy subiram entre 5% e 6% no pré-mercado americano, enquanto as ações preferenciais STRC dispararam 9%.
O próprio bitcoin reagiu positivamente, subindo modestamente após a notícia. Você leu corretamente: o mercado celebrou o anúncio da possibilidade de venda do maior detentor corporativo de bitcoin do mundo (!). Isso confirma uma tese que muitos analistas vinham defendendo nas últimas semanas: a narrativa do “nunca vender” havia se transformado em um peso sobre o preço do bitcoin, não em um suporte.
Investidores temiam que, em algum momento de estresse, a Strategy fosse forçada a vender bitcoin de forma desordenada. Ao formalizar a possibilidade de venda dentro de um plano disciplinado, a empresa removeu uma fonte de incerteza estrutural que pressionava o mercado.
No entanto, a reação positiva do primeiro momento não significa que o desafio esteja resolvido. Existe uma diferença significativa entre autorizar a possibilidade de vendas e efetivamente executar essas vendas no mercado.
Quando, e se, as vendas de fato acontecerem, especialmente em momentos de baixa liquidez no mercado de bitcoin, é razoável esperar reações de preço mais negativas do que estamos vendo agora.
Portanto, o mercado ainda não testou o impacto real das vendas em condições adversas. Cada anúncio futuro de venda efetiva poderá gerar nova rodada de volatilidade, e o investidor precisa estar preparado para isso.
Adicionalmente, vale considerar o efeito cascata sobre as dezenas de outras empresas que replicaram o modelo da Strategy ao longo dos últimos anos. Muitas dessas companhias, com escala menor e estruturas de capital mais frágeis, podem enfrentar pressão semelhante nos próximos meses.
Se o exemplo da maior detentora corporativa de bitcoin do mundo for seguido, podemos ter uma onda de vendas corporativas concentradas em um curto espaço de tempo, o que adicionaria uma camada extra de incerteza ao mercado. Incluindo na OranjeBTC, a maior tesouraria brasileira de bitcoin com ações listadas na B3.
Para o investidor de bitcoin e criptomoedas, três lições estruturais ficam desta mudança histórica. Em primeiro lugar, narrativas absolutistas no mercado financeiro são, por natureza, frágeis.
Frases de efeito como “nunca vender” ou “comprar a qualquer preço” funcionam bem em momentos de euforia, mas inevitavelmente se chocam com a realidade operacional das empresas e dos próprios investidores.
Gestão de risco, controle de balanço e fluxo de caixa sempre vencem retórica de longo prazo. Por fim, o investidor disciplinado é aquele que constrói sua tese sobre fundamentos próprios e princípios sólidos de gestão patrimonial, sem depender de gurus, executivos ou frases de efeito.
Em grande resumo, o anúncio da última segunda-feira (29) marca o fim oficial de uma era. A Strategy continua sendo a maior detentora corporativa de bitcoin do planeta, com mais de 847 mil unidades em tesouraria, e segue comprometida com o bitcoin como ativo principal de reserva.
No entanto, o reconhecimento institucional de que vender é, sim, uma opção válida em determinados momentos representa um amadurecimento importante do mercado de criptoativos. Para o investidor brasileiro, fica a recomendação de sempre: gestão de risco, aportes graduais, diversificação inteligente e, acima de tudo, ceticismo saudável diante de qualquer narrativa absolutista.

