O presidente Donald Trump recebeu hoje (7) na Casa Branca o presidente Lula para uma conversa que ambos os lados chamaram de “encontro de trabalho”, um bate papo informal que não segue os protocolos do governo americano de hospedar e apresentar uma agenda para a comitiva do país convidado.
A reunião estava em stand-by desde março, quando foi adiada devido à guerra no Oriente Médio, que atrapalhou a agenda de Trump. Os dois chefes de estados conversaram por telefone na última sexta-feira (01) para ajustar os detalhes desse encontro que aconteceria seis dias depois.
O bilionário brasileiro Joesley Batista teve um papel importante na organização do encontro entre os presidentes.
O clima que o Presidente Donald Trump recebeu Lula foi visto como amigável para o mercado. O chefe de Estado do Brasil entrou pelo portão mais importante da Casa Branca, por onde passou o Rei Charles na semana anterior, e a conversa com Lula durou mais de três horas – tempo que geralmente não é regra em outros compromissos.
Do lado americano, a equipe que acompanhou Trump foi quase inteiramente econômica: JD Vance, vice-presidente; Scott Bessent, secretário do Tesouro; Howard Lutnick, secretário do Comércio; Susie Wiles, chefe de Gabinete e Jamieson Greer, representante comercial.
Na sua rede social, Truth Social, Donald Trump chamou o presidente Lula de “muito dinâmico” e prometeu novas interações. “Discutimos diversos temas, incluindo Comércio e, especificamente, Tarifas. A reunião foi muito produtiva. Nossos representantes têm reuniões agendadas para discutir alguns pontos-chave. Outras reuniões serão agendadas nos próximos meses, conforme necessário”, escreveu.
A equipe brasileira que acompanhou Lula também reforçou a pauta econômica. Os ministros que acompanharam a reunião foram Mauro Vieira, das Relações Exteriores;
Wellington Lima e Silva, da Justiça e Segurança; Dario Durigan, da Fazenda; Márcio Elias Rosa, do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços e Alexandre Silveira, de Minas e Energia.
Temas discutidos na reunião
Em coletiva de imprensa, Lula disse que “os Estados Unidos sempre foram o principal parceiro comercial do Brasil” e que está tranquilo sobre a possibilidade de Trump aplicar novas tarifas ao Brasil, reforçando que quer que os americanos vejam novamente no Brasil um parceiro nos negócios.
Na perspectiva dos minerais críticos, Lula falou acerca da aprovação da lei, que agora aguarda aprovação no Senado, sobre a exploração de terras raras: “o potencial do Brasil é pouco conhecido e nós devemos compartilhar com quem tem interesse no Brasil, sem preferência”, reforçando que o País está aberto a parceria e que precisa dessa ajuda.
Sobre o comércio bilateral, Lula destacou o déficit da balança comercial brasileira com os Estados Unidos, ou seja, o fato de o Brasil importar mais do que exportar para o país. Entre janeiro e abril de 2026, o saldo negativo acumulado chegou a US$ 1,36 bilhão. O presidente usou o dado para rebater críticas de Donald Trump sobre as tarifas brasileiras, argumentando que não há desequilíbrio favorável ao Brasil na relação comercial. Segundo Lula, a tarifa média aplicada pelo país é de 2,7%, bem abaixo dos 12% mencionados por Trump. Os dois governos devem voltar a se reunir nos próximos 30 dias para discutir parâmetros comerciais considerados mais equilibrados para ambos os lados.
O crime organizado, que estava no radar do encontro, não foi discutido entre os chefes de estado, mas Lula reforçou que propostas sobre o assunto foram entregues à equipe de Trump.
Para o ministro Márcio Elias, “não cabe sobretarifa dos EUA ao Brasil”. Dario Durigan, da Fazenda, reforçou o momento econômico do País. “O Brasil está vivendo um momento de estabilidade e de crescimento acima do esperado, de acordo com o FMI”, disse.
Sobre as eleições no Brasil, Lula disse “creio que Trump não influenciará” no processo eleitoral.
Impactos no mercado
Para Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating, a reunião, apesar de positiva, ainda não rendeu nada de concreto e o mercado financeiro deve avaliar os impactos: “não foram colocadas na mesa as questões que se esperavam como o PIX”, pontuou.
“A postura de Donald Trump é marcar território, solicitando de forma indireta a preferência e prioridade dos EUA para explorar as terras raras e os minerais críticos aqui no Brasil”, comentou o economista.
A concorrência da China com os Estados Unidos e a aproximação da parte oriental com o Brasil pode ser considerada como uma ameaça, e isso poderia explicar a postura diplomática do presidente Donald Trump.
Histórico da relação entre Brasil e Estados Unidos
Desde a posse de Donald Trump em janeiro de 2025, a relação diplomática entre Brasília e Washington entrou em uma fase de pragmatismo tenso, marcada pelo retorno agressivo da agenda “America First”.
No campo econômico, o impacto das medidas protecionistas de Trump desencadeou uma pressão comercial sem precedentes sobre setores vitais da economia brasileira, especialmente o siderúrgico e o agrícola. A imposição de sobretaxas ao aço e ao alumínio, sob a justificativa de segurança nacional, colocaram o Brasil em uma posição defensiva.
O Itamaraty e o Ministério da Fazenda têm atuado em frentes simultâneas, tentando negociar isenções específicas enquanto buscam acelerar a ratificação de acordos com a União Europeia e a China para mitigar a dependência do mercado estadunidense.
Para além das barreiras tarifárias, a pressão de Washington estendeu-se à esfera geopolítica, exigindo alinhamentos claros em relação à disputa tecnológica com o Oriente.
O governo Trump intensificou as cobranças para que o Brasil limite a presença de infraestrutura digital chinesa em solo nacional, utilizando o acesso ao mercado norte-americano como moeda de troca.

