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impacto nos preços de imóveis e condomínios

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A proposta de acabar com a escala 6×1 vem sendo apresentada como uma forma de ampliar a qualidade de vida dos trabalhadores brasileiros —objetivo ao qual poucos se opõem. No setor imobiliário, porém, a discussão é recebida com preocupação. Incorporadoras, construtoras e entidades da habitação afirmam que uma eventual redução da jornada semanal sem corte de salários tende a elevar os custos das obras e, consequentemente, encarecer o sonho da casa própria.

A PEC 221/2019, que altera o artigo 7º da Constituição para fixar uma jornada de até oito horas diárias e 40 horas semanais, foi aprovada na Câmara dos Deputados por 461 votos a 19 e agora aguarda análise do Senado. Na terça-feira (9), a imprensa noticiou que o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), tem dito que não há previsão para a votação.

Entre os defensores da proposta está o senador Paulo Paim (PT-RS), que vê a mudança como parte de um processo mais amplo de revisão das relações de trabalho. “É a PEC que trata da vida, de novos empregos, porque reduzindo a jornada você vai ter mais gente trabalhando, consumindo, repercutindo positivamente na economia. Diminui acidentes de trabalho, o trabalhador poderá descansar mais, se preparar e estudar, ter mais lazer, ir e voltar do trabalho com mais qualidade de vida”, afirmou o parlamentar à TV Senado.

Paim está alinhado com outros apoiadores da proposta, que argumentam que os benefícios sociais da medida superam eventuais impactos econômicos.

Resumo

Impacto do fim da escala 6×1 por segmento imobiliário

Segmento Impacto projetado Principal risco Fonte
Construção civil / MCMV Alta de até 10%nos preços dos imóveis Queda de oferta e agravamento do déficit habitacional CBIC
Incorporação (geral) Alta de até 5,5%nos preços dos imóveis 2,5 milhões de famílias fora do crédito imobiliário ABRAINC / Ecconit
Condomínios com equipe própria Até 15% a maisno orçamento mensal Reajuste automático da cota condominial AABIC
Condomínios com serviços terceirizados Reajuste nos contratosvalor depende da convenção coletiva Repasse pelos prestadores de serviço AABIC

Projeções com base em estudos setoriais. Os impactos dependem da regulamentação final da PEC e de eventuais contrapartidas em lei complementar.

Analista do setor: mudança pode ser menos drástica em alguns aspectos, mas mais cara em outros

Para Daniel Claudino, analista do setor imobiliário e colunista do Portas, os efeitos da mudança são mais complexos do que o debate costuma sugerir.

“Em alguns aspectos, a mudança tende a ser menos drástica do que o título [fim da escala 6×1] sugere. Em outros, pode sair mais cara do que parece, justamente porque as contrapartidas financeiras que muitos esperam não estão garantidas no corpo da emenda”, escreveu em artigo no Portas.

A tese do especialista é que a escala 6×1, por si só, não representa uma batalha que o setor imobiliário ainda consiga impedir. “É tarde demais para isso”, diz. Para Claudino, entretanto, os empreendedores ainda podem atuar por meio de seus representantes e espaços de discussão no Congresso para propor ajustes na PEC ou em uma futura lei complementar. “Os dados do setor sobre o impacto concreto nos preços dos imóveis e nos condomínios reforçam esse argumento.”

Projeto traz apreensão nas empresas do setor imobiliário

Apesar de a mudança não ser imediata — a previsão é de que as alterações entrem em vigor integralmente apenas 14 meses após eventual aprovação do Senado — o mercado imobiliário acompanha o tema com apreensão.

Para Eduardo Aroeira, presidente executivo da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), a preocupação é ainda maior em um contexto em que os custos de mão de obra já estão pressionados. Em um ambiente de juros elevados e crédito mais restrito do que no período pré-pandemia, qualquer aumento no valor dos imóveis pode reduzir o número de famílias aptas a financiar uma moradia.

“Um estudo feito por nós indica que 288 mil novos trabalhadores seriam necessários para compensar a redução da carga horária na construção civil”, afirmou o executivo no fim de maio, durante a divulgação do estudo Indicadores Imobiliários Nacionais, realizado trimestralmente em parceria com a Brain Inteligência Estratégica.

De acordo com a pesquisa da CBIC, a mudança na escala de trabalho pode elevar em até 10% os preços dos imóveis financiados pelo programa Minha Casa, Minha Vida. Para os executivos do setor, os contratos de longo prazo característicos da construção civil exigem que o tema seja amplamente debatido.

Como os empreendimentos são vendidos com antecedência e seguem cronogramas rígidos, mudanças abruptas nas regras trabalhistas teriam forte impacto sobre o planejamento das obras. Todo o processo de execução e precificação dos projetos tende a ser afetado, argumentam representantes do setor.

O alerta sobre as particularidades da construção civil é compartilhado pelo Sindicato da Habitação de São Paulo (Secovi-SP). A preocupação da entidade abrange toda a cadeia produtiva. A indústria de insumos — como cimento, aço e tijolos — também opera em regime de turnos. A adaptação dessas fábricas a jornadas reduzidas encareceria a produção, pressionando o custo do metro quadrado desde a fundação até o acabamento, segundo estimativas do Secovi-SP.

O temor do setor ganhou números em um estudo encomendado pela Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (ABRAINC) à consultoria Ecconit. O levantamento estima que a redução da jornada de 44 para 40 horas semanais poderia elevar em cerca de 5,5% o preço dos imóveis.

O efeito não se limitaria aos lançamentos. Como o valor financiado aumentaria sem crescimento equivalente da renda das famílias, mais compradores poderiam ficar pelo caminho. Pelos cálculos apresentados pela associação, até 2,5 milhões de famílias perderiam condições de acessar o crédito imobiliário. O dado chama atenção em um país que ainda convive com um déficit habitacional estimado em cerca de 6 milhões de moradias.

Por que concretagem e outras etapas da obra não podem simplesmente parar

Além do custo, as empresas apontam obstáculos operacionais. A construção civil depende de atividades que nem sempre podem ser interrompidas ou fragmentadas sem impacto sobre a produtividade. Etapas como concretagens, por exemplo, exigem continuidade para garantir qualidade e segurança.

A preocupação se torna ainda maior porque o setor já enfrenta dificuldades para contratar profissionais qualificados. Na prática, reduzir a jornada e manter o mesmo volume de produção significaria ampliar equipes em um mercado que já sofre com a escassez de trabalhadores especializados.

Diante desse cenário, a ABRAINC defende que eventuais mudanças sejam implementadas de forma gradual. A entidade propõe um período mínimo de cinco anos para adaptação das empresas. “Mudanças estruturais dessa magnitude precisam considerar os impactos econômicos, operacionais e sociais sobre setores intensivos em mão de obra e de ciclo longo, como a construção civil”, afirmou a associação em nota.

Taxas de condomínio também podem aumentar

Para quem já mora em imóvel próprio ou alugado, o impacto da nova jornada também poderá ser sentido, segundo entidades do setor condominial. De acordo com Omar Anauate, presidente da Associação das Administradoras de Bens Imóveis e Condomínios de São Paulo (AABIC), embora a proposta tenha um objetivo social legítimo, seus efeitos econômicos precisam ser considerados.

“A agenda é legítima sob a ótica social: promover maior equilíbrio entre vida profissional e pessoal e reduzir o desgaste físico e mental do trabalhador. No entanto, alterações estruturais nas regras de jornada produzem efeitos econômicos sistêmicos”, afirma o representantes dos administradores de condomínios.

Segundo Anauate, os condomínios possuem uma característica que os diferencia das empresas tradicionais: não operam com margem de lucro capaz de absorver aumentos temporários de despesas. “Não há geração de resultado financeiro. Toda despesa é automaticamente refletida na cota condominial”, explica.

Hoje, os gastos com mão de obra representam entre 55% e 60% do orçamento mensal dos condomínios que mantêm equipes próprias. Em empreendimentos com portaria presencial 24 horas por dia, a cobertura das 168 horas semanais é obrigatória. Nesse cenário, qualquer redução da carga horária individual ou o fim da escala 6×1 exigiria a contratação de mais trabalhadores.

“Se a carga horária individual máxima for reduzida ou se a escala 6×1 for extinta, a consequência matemática é a ampliação do quadro de funcionários para manter o mesmo nível de serviço”, ressalta.

Estudos do setor apontam que, nos condomínios com estrutura própria e equipes enxutas, o impacto pode alcançar até 15% do orçamento. A estimativa considera salários, encargos trabalhistas, férias, 13º salário, FGTS e demais custos relacionados à ampliação do quadro funcional.

Nos condomínios que utilizam serviços terceirizados, os reajustes também seriam inevitáveis. Segundo Anauate, as empresas prestadoras terão de adaptar suas escalas de trabalho e repassar os custos aos contratos. “As empresas prestadoras de serviço terão de readequar suas escalas e estruturas operacionais, repassando os reajustes aos contratos vigentes. A variação dependerá do modelo de jornada adotado, da convenção coletiva aplicável e da necessidade de ampliação de quadro para cobertura de postos ininterruptos”, observa.

Convenções coletivas entram no centro do debate

Para a AABIC, qualquer mudança na legislação trabalhista exigirá preparação prévia dos condomínios, incluindo revisão de processos, reestruturação operacional e diálogo com moradores e conselhos.

“Sem essa preparação, o risco é que um avanço social legítimo produza efeitos econômicos relevantes sobre custos, governança e sustentabilidade financeira”, afirma Anauate.

Segundo o executivo, o principal desafio será encontrar um ponto de equilíbrio entre os avanços nas relações de trabalho e a viabilidade econômica dos empreendimentos. “O desafio será equilibrar evolução trabalhista com responsabilidade econômica, preservando a continuidade dos serviços essenciais que garantem segurança e funcionamento pleno dos empreendimentos”, conclui.

O sociólogo José Pastore, em artigos recentes sobre o tema, tem demonstrado ceticismo em relação às mudanças propostas. Inspirado no conceito do “efeito bumerangue”, ele argumenta que medidas concebidas para beneficiar trabalhadores podem acabar produzindo efeitos adversos.

“Uma medida criada para beneficiar trabalhadores acabaria prejudicando justamente os mais vulneráveis. A alternativa defendida por esses especialistas seria uma redução gradual, negociada e setorial, preservando a flexibilidade das convenções coletivas já existentes”, afirma Pastore, especialista em relações do trabalho.

No Brasil, como lembra o professor, as jornadas são definidas pela Constituição, pelas leis, pelos acordos e pelas convenções coletivas, enquanto as escalas são estabelecidas pelas empresas dentro dos limites legais e das práticas consolidadas em cada setor. A Constituição Federal fixa a jornada máxima de oito horas diárias e 44 horas semanais, permitindo negociações para cargas horárias inferiores. Segundo Pastore, a jornada média semanal do trabalhador brasileiro seria de aproximadamente 39 horas.

“Em suma, os objetivos da PEC 8/2025 são meritórios, mas, para reduzir jornada e mudar escala, o método é inadequado. Há setores que já encurtaram a jornada por desfrutarem de alta produtividade. Mas a maioria não está nesse caso”, escreveu Pastore em artigo publicado na Folha de S.Paulo em 28 de fevereiro de 2026.

Perguntas frequentes sobre o fim da escala 6×1 e o mercado imobiliário

O fim da escala 6×1 já foi aprovado?

A Câmara dos Deputados aprovou a PEC 221/2019 por 461 votos a 19 em 27 de maio de 2026. O texto aguarda análise do Senado. Enquanto não for aprovado pelo Senado e promulgado, a escala 6×1 segue vigente.

Quando entra em vigor o fim da escala 6×1?

Se aprovada pelo Senado, a mudança não é imediata. Há uma transição: 60 dias após a promulgação, a jornada cai para 42 horas semanais com duas folgas. Somente 14 meses depois chega às 40 horas definitivas. Micro e pequenas empresas terão regras de transição específicas em lei complementar.

Quanto os imóveis podem encarecer com o fim da escala 6×1?

As projeções variam conforme o segmento. A CBIC estima alta de até 10% nos imóveis do programa Minha Casa, Minha Vida. Estudo da ABRAINC com a consultoria Ecconit projeta alta de até 5,5% nos imóveis em geral. Pelos cálculos da ABRAINC, até 2,5 milhões de famílias poderiam perder condições de acessar o crédito imobiliário.

O condomínio vai ficar mais caro com o fim da escala 6×1?

Possivelmente sim, segundo a AABIC. Condomínios com equipe própria podem ter o orçamento elevado em até 15%, já que os gastos com mão de obra representam entre 55% e 60% do custo mensal. Condomínios que usam serviços terceirizados também devem sentir reajustes, com repasse pelos prestadores de serviço.

A construção civil é o setor mais afetado pelo fim da escala 6×1?

No mercado imobiliário, sim. A construção é presencial, sequencial e intensiva em mão de obra — etapas como concretagem não podem ser interrompidas sem impacto na qualidade e segurança. A CBIC estima que seriam necessários 288 mil novos trabalhadores para compensar a redução da carga horária, com custo adicional acima de R$ 13,5 bilhões ao ano.

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