As instituições financeiras projetam maior restrição na oferta de crédito imobiliário a partir do terceiro trimestre de 2026. O motivo é a menor tolerância ao risco e receio de alta na inadimplência.
As informações constam na Pesquisa Trimestral de Condições de Crédito, divulgada nesta quinta-feira (20) pelo Banco Central. Os dados da sondagem foram coletados entre os dias 13 e 31 de julho, a partir da avaliação de mercado de sete das principais instituições financeiras do país que operam no segmento de crédito habitacional para pessoas físicas.
Esta não é a primeira vez que a Pesquisa Trimestral de Condições de Crédito indica restrição. No relatório anterior, divulgado em maio, a pesquisa do BC já mencionava esse cenário, porém, dizia que “a captação de novos clientes contribuiu para mitigar este nível restritivo da oferta.” Desta vez, a autoridade monetária afirma que essa restrição será elevada, termo que não havia adotado no relatório anterior.
“Para 26T3, espera-se uma elevação do grau de restrição, devido à menor tolerância ao risco e à maior expectativa de inadimplência do mercado” informa trecho do documento.
O estudo, que traz a visão dessas instituições, e não do BC, indica que o cenário já foi de preocupação no segundo trimestre. “As condições de oferta permaneceram estáveis em 26T2, com maior preocupação com nível de comprometimento de renda do consumidor sendo mitigada por melhor custo/disponibilidade de funding e pelo ambiente institucional”, diz o documento.
Habitação foi destaque
Além de trazer as projeções para o próximo trimestre, o relatório também analisa os dados do último trimestre. O estudo também analisa os demais grandes segmentos de crédito, como grandes empresas, micro, pequenas e médias empresas e consumo das famílias.
O texto indica que, enquanto a oferta de financiamento imobiliário permaneceu estável, as demais tiveram aumento ou continuidade das restrições.
Segundo a pesquisa, dois fatores ajudaram a sustentar esse cenário: a melhora no custo e na disponibilidade de funding, e um ambiente institucional favorável. Esses fatores compensaram, em parte, uma preocupação que continuou pesando sobre os bancos: o nível de comprometimento da renda dos consumidores.
A inadimplência também trouxe algum alívio. Embora continue entre as principais preocupações das instituições financeiras em relação à concessão de crédito, no segmento imobiliário o comportamento da inadimplência ficou abaixo do esperado pelos bancos no segundo trimestre.
Demanda continua aquecida
Se os bancos mantiveram uma postura cautelosa, os consumidores seguiram em outra direção. A demanda por financiamento habitacional se fortaleceu no segundo trimestre e mostrou resistência mesmo diante das condições do mercado de crédito.
Um dos principais fatores de estímulo foram as alterações nas taxas de juros, e o nível de emprego e nas condições salariais, além do avanço da confiança do consumidor.
Para o terceiro trimestre, os bancos esperam que a demanda continue se fortalecendo. As alterações nas taxas de juros devem permanecer como o principal estímulo, seguidas pelas condições favoráveis do mercado de trabalho.
Por outro lado, há sinais de que o orçamento das famílias pode começar a pesar mais. O comprometimento da renda deve passar a exercer influência negativa sobre a demanda, assim como a evolução dos preços dos imóveis, que também aparece como um fator de contenção.
Bancos devem fechar a torneira
É justamente nesse ponto que aparece a principal mudança prevista para o terceiro trimestre. Apesar da demanda ainda aquecida, as instituições financeiras projetam maior restrição na oferta de crédito habitacional.
Os dados da tabela acima indicam que o movimento não está relacionado, neste momento, à falta de recursos para financiar os imóveis. O indicador de custo e disponibilidade de funding, que havia sido positivo no segundo trimestre, passa ao nível de estabilidade na projeção para o terceiro trimestre.
Se, por um lado, o fator deixa de contribuir positivamente para a oferta, ele, por outro lado, também não aparece como um fator de restrição. A mudança está mais relacionada à percepção de risco.
A tolerância ao risco dos bancos deve cair no terceiro trimestre. Ao mesmo tempo, a preocupação com a inadimplência do mercado aumenta , tornando-se o principal fator de pressão sobre a disposição das instituições em conceder novos financiamentos.
Ou seja, o cenário será de maior seletividade e os dados sinalizam que as pessoas interessadas em adquirir imóveis encontrarão processos mais rigorosos por parte dos bancos para liberação de crédito.

