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150 anos após morte de Mikhail Bakunin, anarquismo segue vivo, apesar de tímido, no Brasil

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No dia 3 de julho de 1876, na cidade suíça de Berna, os coveiros de um cemitério local faziam piadas sobre a profundidade da cova que deveriam cavar. Também zombavam do tamanho e do peso do caixão, que trazia um homem grande física e historicamente: Mikhail Bakunin, um dos pais do anarquismo, morto dois dias antes.

As ideias do russo tiveram impacto significativo na sociedade europeia do século 19, tendo se espalhado pelo mundo nas décadas seguintes —inclusive no Brasil, onde ainda encontra adeptos.

Para Felipe Corrêa, doutor pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e autor do livro “Liberdade ou Morte: Teoria e Prática de Mikhail Bakunin”, o anarquismo se fundamenta em três características: a crítica da dominação, a defesa da autogestão e uma estratégia capaz de abolir as classes sociais e de centralizar o poder de decisão nas mãos dos trabalhadores.

Arthur Castro, professor de história e militante anarquista, enxerga que a diferença dessa corrente do socialismo para as outras é a forte oposição ao Estado, o qual, para o anarquismo, deve ser abolido. O marxismo clássico, por exemplo, prevê um estágio intermediário até o desparecimento estatal, em que seria instaurada a “ditadura do proletariado”, nas mãos dos trabalhadores.

Os anarquistas acreditam que isso recria a sociedade de classes. Por isso, buscam a abolição imediata do Estado, pois ninguém —mesmo o trabalhador— deve exercer poder sobre o outro, assim como nenhuma autoridade deve ser tolerada —mesmo o partido revolucionário. O anarquismo faz parte da luta contra o racismo, a LGBTfobia e o machismo.

Castro diz, no entanto, que a ausência de um Estado não significa a ausência de leis, instituições ou organização da sociedade. A sociedade se organizaria em associações como cooperativas ou comunas, em que a autogestão seria a regra. Ou seja, sem controle de proprietários ou membros estatais. Para decisões maiores, pode haver discussões descentralizadas, desde que não exista um poder soberano.

No Brasil, ainda que não haja dados precisos, os anarquistas representam uma parcela pequena da população. A militância está dispersa pelos estados em federações, coletivos e sindicatos. A Organização Socialista Libertária (OSL), por exemplo, da qual Castro faz parte, reúne agrupamentos em São Paulo, no Rio de Janeiro e em Minas Gerais.

O professor afirma que a organização busca a luta de classes por meio da ação dos trabalhadores, o que implica embates contra as grandes corporações, mas também contra diferentes espectros políticos —”desde o PT, de Lula, até o PL, de Bolsonaro”.

A Coordenação Anarquista Brasileira (CAB), em funcionamento desde 2012, articula grupos anarquistas que atuam no Brasil. Há, ainda, sites que se dedicam à publicação de textos anarquistas, como a Agência de Notícias Anarquistas (ANA) e a Federação Anarquista.

No campo cultural, a cidade de São Paulo abriga o Centro de Cultura Social (CCS) e a Biblioteca Terra Livre. O CCS promove atividades culturais ligadas ao movimento, como palestras, peças e filmes, visando o “aprimoramento intelectual, a prática pedagógica e os debates públicos”. A Biblioteca é uma editora especializada em títulos anarquistas, além de reunir em seu site diversos textos sobre o assunto. Ambas as entidades fizeram uma convocatória nas redes sociais para “formação de quadrilha anarquista” —uma festa junina.

Se no fim do século 19 e início do século passado havia uma participação significativa do anarquismo no país, a ponto de ter existido uma colônia anarquista no Paraná, hoje ele não possui a mesma expressão. Nos últimos anos, quase nada de relevante foi feito por anarquistas no cenário político. A última discussão significativa sobre anarquismo foi à época dos movimentos de junho de 2013, a respeito da classificação política dos black blocs.

Mesmo assim, Corrêa e Castro dizem acreditar que o anarquismo pode gerar apelo entre as pessoas. Para o pesquisador, a frustração com os problemas econômicos e políticos pode abrir possibilidades para os anarquistas. Castro, que está há 20 anos no movimento, classifica o anarquismo como a “alternativa mais coerente diante dos problemas que a sociedade atual enfrenta”.

O professor crê em crises profundas que o capitalismo não é capaz de enfrentar, o que pode dar espaço a diferentes tipos de pensamento, como o anarquismo. A crise climática, o avanço da desigualdade, a eclosão de guerras e uma crise política de representação seriam os principais problemas de hoje, na visão de Castro.

Ainda que tímido, o movimento anarquista segue presente no Brasil. Corrêa chega a dizer que “de maneira geral, ao longo das últimas décadas, há avanços quantitativos e qualitativos”. Castro reconhece que há um “longo percurso a ser trilhado para que o anarquismo recupere seu status de força política influente”, mas admite a limitação em influenciar a sociedade e a luta de classes.

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